Habermas exterioriza a problemática sobre a comunicação entre diferentes
etnias, gêneros e culturas. De que forma o pensamento de Habermas pode ajudar
na compreensão e intercomunicação dos sujeitos?
Habermas busca
fundamentar nosso conhecimento. Este se dá no âmbito da linguagem, porque esta
detém elementos anteriores à manipulação de domínio exercido por determinadas hierarquias
sociais. A linguagem apela para o sujeito do conhecimento, para uma fala ideal que é colocada de forma a
sugerir o diálogo não no intuito de posse da verdade, mas para o entendimento mútuo
através de um acordo comunicativo. Habermas
busca fundamentar sua filosofia no fator cognição que se dá através da
inteligência ao adquirir um conhecimento. Para ele a linguagem antes de “status” de ideologias tem um elemento
cognitivo, um pressuposto intelectual, para que eu expresse uma ordem ou um
discurso e o outro a apreenda é necessário que eu entenda este discurso,
portanto a linguagem esta dotada de cognição onde “O uso comunicativo de expressões linguísticas não serve
apenas para exprimir intenções de um falante, mas também para representar
estados de coisa e estabelecer relações interpessoais com uma segunda
pessoa" (Gomes; 2007, p.
56).
O discurso em
condições livres, livre aqui entendido como a capacidade de uma comunidade agir
de forma deliberativa, no intuito de agregação das sociedades, pensa também, a
validação de verdades e não a imposição das mesmas. Este discurso conforme
supracitado, vai de encontro à fala do outro não no intuito de poder e ou
dominação, mas de ser entendido. Então livre de ideologias, neste sentido ideal
de fala haveria um consenso na pura atividade da razão. Segundo GIRALDELLI
(2011) no âmbito da dominação a linguagem não pode ser dada como uma ação
moral. É na
esfera pública que Habermas concentrará grandes forças, conforme relata:
A esfera pública
burguesa pode ser concebida, antes de mais, como a esfera em que pessoas
privadas se juntam enquanto um público; bem cedo, reclamaram que essa esfera
pública fosse regulada como se estivesse acima das próprias autoridades pú
blicas; de forma a incluí-las num debate sobre as regras gerais que governam as
re lações da esfera da troca de bens e de trabalho social basicamente
privatizada, mas publicamente relevante. (Habermas; 2003, p.56).
Pois é na esfera pública que está o mundo da vida, segundo Habermas, duas esferas coexistem na
sociedade: o sistema e o mundo da vida. O sistema refere-se à
reprodução material, regida pela lógica instrumental, incorporada nas relações
hierárquicas e de intercâmbio. Habermas considera o mundo da vida como
elemento último da integração social. Assim, temos o poder político,
instituições, imprensa e os meios de comunicações como uma forma de sistema e o
mundo da vida como meio de integração social através da democracia. Habermas
irá afirmar: “Estou convencido que comunicar é
sempre a ação mais executada todos os dias na vida comunicativa.” (Habermas, 2003, p. 123). O Agir
comunicativo está centrado na superação da teoria critica dos fundadores
da escola de Frankfurt no que concerne à razão instrumental pelo chamado giro
da teoria da comunicação por Habermas, conforme afirma HONNETH (2010, p. 76).
No essencial, eles se
resumem ao chamado “giro” da teoria da comunicação, ou seja, ao empenho de
Habermas em fundamentar uma sociedade cujos traços essenciais não fossem a
produção e as respectivas relações de produção, e sim um conceito do social,
caracterizado em seu cerne pelo processo de compreensão linguística. Este é o
giro da teoria da comunicação, que consiste igualmente em identificar a ação comunicativa,
e não mais a ação instrumental (...)
Posto como uma
inversão essencial da ação e suas relações de produção que se caracteriza, pela
alienação e pela ação ou prática instrumental, para o âmbito de consenso dos homens
e seus pares, que por sua vez se caracteriza pela ação comunicativa. Ocasionando
uma mudança de paradigma da razão como instrumento de dominação para a razão
como prática voltada exclusivamente para o entendimento, porém como um elemento
novo e essencial que é a linguagem. No agir comunicativo o entendimento é a
chave para a emancipação do homem e sua sociedade. Uma vez que, a razão
instrumental “nasce quando o sujeito do conhecimento toma a decisão de que
conhecer é dominar e controlar a natureza e os seres humanos” (Chauí, 2008, p. 232).
A importância
deste empreendimento, a saber, a teoria da ação comunicativa concentra-se no
“Giro da teoria da Comunicação” termo utilizado pelo filósofo Axel Honneth, que
no início de sua carreira trabalhou como assistente de Habermas, ponderando a
respeito de como um conceito social forma uma ação comunicativa e não
instrumental. Em suas palavras:
A Teoria Crítica encontrou
seu lugar no gênero da crítica social, que em certo sentido já havia sido
formada pelos clássicos – por Durkheim, Max Weber e também por Parsons. Isso
não era possível antes. A partir de uma forte ligação com Marx, a antiga Teoria
Crítica havia compreendido a sociedade como sendo, em princípio, apenas uma
“estrutura de trabalho” [Arbeitszusammenhang]. Creio que isso representou
uma limitação para a sua perspectiva normativa, e avalio ainda que ela era, sob
um aspecto específico, não sociológico.
Eu diria que a grande contribuição
de Habermas no que concerne à Teoria Crítica foi precisamente esta transformação,
isto é, a ultrapassagem deste paradigma de produção ou dessa herança
histórico-filosófica que procede de Marx.
(HONNETH, 2010, p. 76).
A teoria critica
não estava mais remetida em seu fundamento a uma análise da sociedade como
estrutura de produção e sim de comunicação, coesão e estereótipos, somente para
ilustrar como iniciamos um discurso, diálogo ou se preferirem um ato
comunicativo. Estes sobre a égide muitas vezes do inconsciente, a relação dos
homens com seus pares se dá através da coesão. A teoria da ação comunicativa
desponta como uma das grandes intuições de Habermas ao indicar o desligamento
do sujeito diante da colonização do sistema.
Habermas retira
o sujeito do campo do objetivismo ou para ser mais preciso do campo técnico
cientifico idealizado pelo capitalismo moderno, para primeiro estrutura-lo através
da linguagem, onde a linguagem o posicionará em um grupo de falantes no qual se
reconhecerá como ser cognitivo. O agir comunicativo se contrapõe ao agir
estratégico, o primeiro uma ação deontológica o segundo teleológica.
Uma problemática
a ser superada na ação comunicativa esbarra no descontentamento humano. O homem
no decorrer da história elabora seus fundamentos sejam eles religiosos ou
laicos, ocasionando embates universais de dura resolução. Não obstante, uma
teoria da ação comunicativa preserva a integridade do sujeito enquanto delibera
sobre sua pretensão de validade, abrindo espaço para a esfera pública se
manifestar. Este embate comunicativo é uma ação livre de normatividade, porém com
regras cognitivas de linguagem.
REFERÊNCIAS
HABERMAS, Jurgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública,
Tempo Universitário, São Paulo,
2003.
Editora
Alamedina, Coimbra, 2004.
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