sábado, 4 de agosto de 2012

A Ação Comunicativa um Projeto para a Modernidade


Habermas exterioriza a problemática sobre a comunicação entre diferentes etnias, gêneros e culturas. De que forma o pensamento de Habermas pode ajudar na compreensão e intercomunicação dos sujeitos?
Habermas busca fundamentar nosso conhecimento. Este se dá no âmbito da linguagem, porque esta detém elementos anteriores à manipulação de domínio exercido por determinadas hierarquias sociais. A linguagem apela para o sujeito do conhecimento, para uma fala ideal que é colocada de forma a sugerir o diálogo não no intuito de posse da verdade, mas para o entendimento mútuo através de um acordo comunicativo. Habermas busca fundamentar sua filosofia no fator cognição que se dá através da inteligência ao adquirir um conhecimento. Para ele a linguagem antes de “status” de ideologias tem um elemento cognitivo, um pressuposto intelectual, para que eu expresse uma ordem ou um discurso e o outro a apreenda é necessário que eu entenda este discurso, portanto a linguagem esta dotada de cognição onde “O uso comunicativo de expressões linguísticas não serve apenas para exprimir intenções de um falante, mas também para representar estados de coisa e estabelecer relações interpessoais com uma segunda pessoa" (Gomes; 2007, p. 56).
O discurso em condições livres, livre aqui entendido como a capacidade de uma comunidade agir de forma deliberativa, no intuito de agregação das sociedades, pensa também, a validação de verdades e não a imposição das mesmas. Este discurso conforme supracitado, vai de encontro à fala do outro não no intuito de poder e ou dominação, mas de ser entendido. Então livre de ideologias, neste sentido ideal de fala haveria um consenso na pura atividade da razão. Segundo GIRALDELLI (2011) no âmbito da dominação a linguagem não pode ser dada como uma ação moral. É na esfera pública que Habermas concentrará grandes forças, conforme relata:

A esfera pública burguesa pode ser concebida, antes de mais, como a esfera em que pessoas privadas se juntam enquanto um público; bem cedo, reclamaram que essa esfera pública fosse regulada como se estivesse acima das próprias autoridades pú blicas; de forma a incluí-las num debate sobre as regras gerais que governam as re lações da esfera da troca de bens e de trabalho social basicamente privatizada, mas publicamente relevante. (Habermas; 2003, p.56).

Pois é na esfera pública que está o mundo da vida, segundo Habermas, duas esferas coexistem na sociedade: o sistema e o mundo da vida. O sistema refere-se à reprodução material, regida pela lógica instrumental, incorporada nas relações hierárquicas e de intercâmbio. Habermas considera o mundo da vida como elemento último da integração social. Assim, temos o poder político, instituições, imprensa e os meios de comunicações como uma forma de sistema e o mundo da vida como meio de integração social através da democracia. Habermas irá afirmar: “Estou convencido que comunicar é sempre a ação mais executada todos os dias na vida comunicativa.” (Habermas, 2003, p. 123). O Agir comunicativo está centrado na superação da teoria critica dos fundadores da escola de Frankfurt no que concerne à razão instrumental pelo chamado giro da teoria da comunicação por Habermas, conforme afirma HONNETH (2010, p. 76).

No essencial, eles se resumem ao chamado “giro” da teoria da comunicação, ou seja, ao empenho de Habermas em fundamentar uma sociedade cujos traços essenciais não fossem a produção e as respectivas relações de produção, e sim um conceito do social, caracterizado em seu cerne pelo processo de compreensão linguística. Este é o giro da teoria da comunicação, que consiste igualmente em identificar a ação comunicativa, e não mais a ação instrumental (...)

Posto como uma inversão essencial da ação e suas relações de produção que se caracteriza, pela alienação e pela ação ou prática instrumental, para o âmbito de consenso dos homens e seus pares, que por sua vez se caracteriza pela ação comunicativa. Ocasionando uma mudança de paradigma da razão como instrumento de dominação para a razão como prática voltada exclusivamente para o entendimento, porém como um elemento novo e essencial que é a linguagem. No agir comunicativo o entendimento é a chave para a emancipação do homem e sua sociedade. Uma vez que, a razão instrumental “nasce quando o sujeito do conhecimento toma a decisão de que conhecer é dominar e controlar a natureza e os seres humanos” (Chauí, 2008, p. 232).
A importância deste empreendimento, a saber, a teoria da ação comunicativa concentra-se no “Giro da teoria da Comunicação” termo utilizado pelo filósofo Axel Honneth, que no início de sua carreira trabalhou como assistente de Habermas, ponderando a respeito de como um conceito social forma uma ação comunicativa e não instrumental. Em suas palavras:

A Teoria Crítica encontrou seu lugar no gênero da crítica social, que em certo sentido já havia sido formada pelos clássicos – por Durkheim, Max Weber e também por Parsons. Isso não era possível antes. A partir de uma forte ligação com Marx, a antiga Teoria Crítica havia compreendido a sociedade como sendo, em princípio, apenas uma “estrutura de trabalho” [Arbeitszusammenhang]. Creio que isso representou uma limitação para a sua perspectiva normativa, e avalio ainda que ela era, sob um aspecto específico, não sociológico.
Eu diria que a grande contribuição de Habermas no que concerne à Teoria Crítica foi precisamente esta transformação, isto é, a ultrapassagem deste paradigma de produção ou dessa herança histórico-filosófica que procede de Marx.
(HONNETH, 2010, p. 76).

A teoria critica não estava mais remetida em seu fundamento a uma análise da sociedade como estrutura de produção e sim de comunicação, coesão e estereótipos, somente para ilustrar como iniciamos um discurso, diálogo ou se preferirem um ato comunicativo. Estes sobre a égide muitas vezes do inconsciente, a relação dos homens com seus pares se dá através da coesão. A teoria da ação comunicativa desponta como uma das grandes intuições de Habermas ao indicar o desligamento do sujeito diante da colonização do sistema.
Habermas retira o sujeito do campo do objetivismo ou para ser mais preciso do campo técnico cientifico idealizado pelo capitalismo moderno, para primeiro estrutura-lo através da linguagem, onde a linguagem o posicionará em um grupo de falantes no qual se reconhecerá como ser cognitivo. O agir comunicativo se contrapõe ao agir estratégico, o primeiro uma ação deontológica o segundo teleológica.
Uma problemática a ser superada na ação comunicativa esbarra no descontentamento humano. O homem no decorrer da história elabora seus fundamentos sejam eles religiosos ou laicos, ocasionando embates universais de dura resolução. Não obstante, uma teoria da ação comunicativa preserva a integridade do sujeito enquanto delibera sobre sua pretensão de validade, abrindo espaço para a esfera pública se manifestar. Este embate comunicativo é uma ação livre de normatividade, porém com regras cognitivas de linguagem.

REFERÊNCIAS

HABERMAS, Jurgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública,
Tempo Universitário, São Paulo, 2003.

 HABERMAS, Jurgen. Pensamento Pós-Metáfisico,
Editora Alamedina, Coimbra, 2004.


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